segunda-feira, 11 de junho de 2012

Logística Reversa e educação ambiental - Por Patrícia Guarnieri




Crédito: FreeDigitalPhotos.net
Artigo cedido para o site Ecopedagogia
Por Patrícia Guarnieri

Em tempos de incentivo ao consumismo, temos que refletir sobre o que acontece com o lixo que geramos depois do consumo. Após o uso de diversos produtos, são gerados resíduos de pós-consumo (no final de sua vida util, ex: embalagens, eletrodomésticos obsoletos/estragados, carros que não tem mais valor de mercado, resíduos industriais,etc) e resíduos de pós-venda (produtos que tiveram pouco ou nenhum uso, por problemas comerciais, devoluções, garantias, obsolescência, etc), dos quais  grande parte é descartada em locais inapropriados.

Qual seria a solução correta? Simplesmente descartar estes resíduos em um aterro sanitário ou em lixões? Definitivamente isso não é mais possível
Quem descarta lixo de forma irresponsável no meio ambiente pode ser multado e até preso por estar incorrendo em crime ambiental, de acordo com  a Lei de Crimes Ambientais 9.605/1998. Além disso, de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei 12.305/2010 a qual foi sancionada após 21 anos de tramitação no Congresso Nacional, o descarte inadequado de resíduos sólidos também está sujeito à penalidades.
A PNRS estabelece que até 2014 haverá o fim dos lixões e a implementação efetiva da coleta seletiva, que ocorrerá com o apoio de cooperativas de catadores e Poder Público. Além disso, também estabelece a obrigatoriedade da logística reversa, a qual inclui a responsabilidade compartilhada entre todos os atores responsáveis pela geração de resíduos (fabricantes, atacadistas, varejistas, importadores, Poder Público e consumidores finais). Portanto, as empresas e o Poder Público possuem responsabilidade na gestão de resíduos, mas nós cidadãos e consumidores finais também.
A logística reversa, termo agora mais difundido devido à sanção da PNRS trata do planejamento e operacionalização dos resíduos por meio de canais de revalorização, os quais são: reúso, reciclagem, upcycling, downcycling, remanufatura, venda ao mercado secundário, doação, compostagem, incineração e por último, a destinação final correta. Desta forma, o volume de resíduos descartado em vias públicas, rios, córregos, lotes vagos é reduzido e, além disso, podem ser obtidos retornos financeiros com a venda destes resíduos à empresas de reciclagem que os utilizam em seus processos produtivos, gerando renda e empregos. Outros fatores importantes que podem ser citados são: a preservação do meio ambiente e a melhoria de qualidade de vida para os cidadãos.
E como nós cidadãos, podemos contribuir para a logística reversa? Nós devemos separar o lixo seco do úmido, para possibilitar sua revalorização e, devemos descartar os resíduos citados na Lei de forma adequada nos canais reversos que serão implementados pelas empresas e também pelo Poder Público, por meio de pontos de entrega voluntárias (PEVs) ou coleta seletiva porta-à-porta. Cabe ressaltar que o cidadão que descartar os resíduos inadequadamente será multado. A multa para os cidadãos que descumprirem a lei pode variar de R$50 a R$500.
Porém convido-os a refletir sobre um aspecto essencial neste processo. Como convencer e conscientizar os cidadãos  a participar ativamente deste novo processo que alterará completamente a rotina de consumo e de descarte dos resíduos?  Neste momento, necessitamos urgentemente da educação ambiental, de adultos e crianças a fim de articular a
produção de sentidos sobre a necessidade da preservação do meio ambiente, por meio da  logística reversa.
Neste sentido, os educadores têm um papel essencial na conscientização das crianças e jovens, pois muitas destas crianças e jovens acabam por educar ambientalmente os próprios pais e introduzir a separação de lixo e o consumo sustentável em suas residências. Aquilo que aprendem nas escolas é multiplicado para sua rede de contatos, pois hoje os jovens possuem maior consciência ambiental e maior influência do que os jovens de outras épocas.  Esta conscientização ocorre devido à maior evidência dos impactos ambientais que são divulgados pela mídia e à carência de recursos naturais. Assim,  a preocupação ambiental se torna natural, pois faz parte do seu cotidiano, quando a criança é educada inserindo-se as questões ambientais, torna-se muito fácil influenciar os pais a colaborarem neste sentido.
Sendo assim, os educadores podem incutir no ensino atitudes ambientais corretas que contribuem para a preservação do meio ambiente e incentivar as crianças e jovens a praticar o consumo sustentável, pois não basta que tratemos dos resíduos gerados até agora, temos que nos preocupar também em reduzir essa geração futuramente, o que dependerá diretamente da conscientização das crianças e jovens no presente.
De acordo com Reigota (1998), a educação ambiental aponta para propostas pedagógicas centradas na conscientização, mudança de comportamento, desenvolvimento de competências, capacidade de avaliação e participação dos educandos, para estimular maior integração e harmonia dos indivíduos com o meio ambiente. A  educação ambiental deve ser um ato voltado para a transformação social.
E como trabalhar o meio ambiente na escola? Citando Vigotsky (apud Tamaio, 2000) pode-se iniciar com um  processo de reconstrução interna (dos indivíduos), o qual  ocorre a partir da interação com uma ação externa (natureza, reciclagem, efeito estufa, ecossistema, recursos hídricos, desmatamento) e do aprendizado social, baseado no diálogo e na interação em constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significados, que podem se originar do aprendizado em sala de aula ou da experiência pessoal do aluno.
Na escola a logística pode ser trabalhada, de acordo com a pedagoga e escritora Berenice G. Adams,  a partir de atividades sensibilizadoras com sucata, promovendo uma reflexão sobre os produtos que adquirimos, a partir de análises das embalagens, de onde ela vem, qual o caminho que percorreu até aqui, para onde vai agora, o que pode ser feita com ela (embalagem) e por aí afora. Destas atividades surgem inúmeras outras e aos poucos vão se introduzindo os conceitos dos 5 R’s: repensar - recusar - reduzir - reutilizar – reciclar.
Devemos considerar que a educação que deve ocorrer primeiramente em casa e, depois na escola, é a melhor forma de mostrar aos adultos e profissionais do futuro que temos sim possibilidades de reduzir, reciclar e reutilizar tudo aquilo que necessitamos para propiciar conforto e bem-estar na nossa vida, desta forma o consumo consciente será parte da nossa cultura, infelizmente isso não ocorre de uma hora para outra, precisamos investir nas crianças e nos jovens para que o futuro do nosso planeta seja melhor.
Assim, a escola pode transformar-se no espaço em que o aluno terá condições de analisar a natureza em um contexto entrelaçado de práticas sociais, os professores por sua vez devem estar cada vez mais preparados sobre as questões ambientais e sociais, de forma a introduzí-las no contexto escolar, transmitindo-as  aos alunos sua expressão e significados.
 
Professora e Pesquisadora
UnB - Universidade de Brasília
FACE - Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Ciência da Informação e documentação
Departamento de Administração
Mestre e Doutoranda em Engenharia de Produção
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