quarta-feira, 13 de junho de 2012

Reciclagem na escola tem que ser trabalho de equipe -Térése Hofmann Gatti (UnB)

Reciclagem na escola tem que ser trabalho de equipe

Autor:Ricardo de Sagebin

Thérèse Hofmann Gatti (UnB): "Quanto mais cedo as crianças aprendem bons hábitos, mais naturais eles se tornam"


Doutora em desenvolvimento sustentável, mestre em arte e tecnologia da imagem e licenciada em educação artística, Thérèse Hofmann Gatti é professora do Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília (UnB). Exerce as funções de coordenadora do Laboratório de Materiais Expressivos e do Laboratório de Papel Artesanal e ainda coordena o curso de licenciatura de artes visuais a distância.

Com linha de pesquisa em materiais em arte e papel artesanal, Thérèse detém duas patentes registradas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). A de reciclagem do papel-moeda e a de reciclagem de bitucas de cigarro.

Em entrevista ao Jornal do Professor, ela considera importante que as escolas participem de ações de reciclagem. Segundo Thérèse, quanto mais cedo as crianças aprendem bons hábitos, “mais naturais e introjetados tais hábitos se tornam”. Ela enfatiza, no entanto, a necessidade de a reciclagem ser uma ação assumida pela direção da escola, acompanhada por todos os professores. A escola deve ter um projeto que integre a reciclagem nas questões de conscientização sobre a racionalização do consumo de água, energia e insumos em geral e que aborde a reutilização dos produtos.

Jornal do Professor – Em sua opinião, é importante que as escolas participem de ações de reciclagem? Por quê?

Thérèse Hofmann Gatti – Sim. A escola é o local das descobertas, onde o aprendizado deve ser continuado e integrado. É na escola que passamos boa parte do nosso dia durante o período da infância e adolescência. Para as crianças, quanto mais cedo aprenderem bons hábitos, mais naturais e introjetados esses hábitos se tornam. A reciclagem insere-se nas questões de saúde e meio ambiente e também no contexto de hábitos saudáveis.

JP – Que ações de reciclagem podem ser desenvolvidas nas escolas, de maneira geral?

THG – Dentro da especificidade dos parâmetros curriculares nacionais de cada fase do ensino fundamental e médio, a reciclagem deve estar inserida no contexto dos hábitos do dia a dia da comunidade escolar. Sejam alunos, professores ou os servidores das escolas. A reciclagem está inserida na questão da educação ambiental, prevista na Constituição de 1988. É uma temática que pode ser abordada em diversas disciplinas, como ciências, geografia e arte, e no ensino das questões do meio ambiente e saúde, entre outras. Não deve ser abordada só nas comemorações do dia do meio ambiente, mas ter um projeto de escola que a integre nas questões ambientais de conscientização da racionalização do consumo de água, energia e insumos em geral, com abordagem na reutilização dos produtos e diminuição do consumo.

JP – Como devem ser feitas essas ações? Como deve ser a participação dos alunos e da comunidade?

THG – A reciclagem insere-se numa cadeia de oito “erres” — refletir, reduzir, reutilizar, reciclar, respeitar, reparar, responsabilizar-se e repassar. Na escola, devem ser discutidas todas essas ações, a começar por “refletir” o consumo, repensar a necessidade real de ter tantos objetos. As ações são múltiplas e devem estar inseridas na programação anual da escola. Mas também ações básicas como a disponibilidade de coletores diferentes para cada tipo de lixo ou, pelo menos, um para materiais recicláveis e outro para orgânicos. Isso já estimula o descarte correto dos resíduos e mostra de forma clara a intenção da escola. Os hábitos dos professores também são muito observados e copiados pelos alunos. Não adianta o professor falar em preservar o meio ambiente se a cada ida ao bebedouro ele usa um copo descartável diferente. As ações devem ser coerentes. O professor não pode falar uma coisa e fazer outra. A ação deve acompanhar o discurso.

JP – Que tipos de materiais podem ser incluídos em campanhas de reciclagem promovidas nas escolas?

THG – As campanhas devem ser as mais criativas possíveis e contar com a participação ativa dos alunos, sem esquecer que a reciclagem não é a primeira ação ambiental. A primeira preocupação deve ser a questão de repensar o consumo desenfreado, na ordem dos oito “erres” citados. Nesse contexto, pode-se promover gincanas, competições de projetos sobre meio ambiente, execução de músicas, encenação de peças teatrais; confecção de cartazes; coleta de materiais recicláveis pela escola; criação de logomarcas sobre educação ambiental; designação de um dia sem uso de copo descartável etc. É recomendável também mostrar aos adolescentes como fazer sabão com óleo de cozinha usado.

JP – Além da questão de consciência ambiental e social, a escola pode obter algum recurso com a reciclagem?

THG – Sim. Há escolas que promovem campanhas de coleta de materiais e os vendem a empresas recicladoras.

JP – Existem modelos de projetos de reciclagem para que diretores e gestores possam usar como exemplo?

THG – Existem vários projetos. Mas, basicamente, é uma questão de hábito, que tem de fazer parte da cultura das pessoas. Cada escola tem uma realidade, e nem sempre é possível copiar um modelo de sucesso empreendido em outra escola. A questão fundamental é o princípio da ação. O que se deseja fazer? Qual a disponibilidade interna das pessoas da comunidade escolar em desenvolver tais projetos e ações? Não dá para ser o desejo de uma única pessoa. Tem que ser trabalho de equipe. Se não, cai no vazio. Ou fica pejorativo: "Isso é coisa da professora de artes” (para usar a minha área como exemplo). Já recebi vários pedidos de apoio de professores para desenvolver projetos de meio ambiente e reciclagem em escolas. Apesar do empenho desses profissionais, os projetos não vingaram, pois não foram absorvidos pela direção e pelos demais colegas. São ações de médio e longo prazos. Temos culturalmente hábitos de desperdício e de mau uso dos recursos difíceis de serem mudados. A simples separação do lixo já é uma ação positiva. Infelizmente, em vários estados, não há coleta seletiva nas residências. A separação do lixo deve ser uma rotina em nossas casas e nas escolas.

JP – A senhora conhece alguma escola que seja modelo de reciclagem e que tenha isso como filosofia?

THG – Em 2010, no Jardim de Infância da 404 Norte [unidade pública de Brasília], a diretora, professores e servidores estimulavam várias práticas de conscientização do meio ambiente e de hábitos saudáveis de saúde e higiene. Eles organizavam a coleta de material reciclável e enviavam bilhetes aos pais para pedir a doação de papel, papelão, jornais, revistas, caixas de leite e suco, garrafas plásticas, latas de alumínio e até óleo de cozinha usado. Os pequenos levavam isso muito a sério. Varias atividades eram desenvolvidas com as crianças em torno da reciclagem e do reaproveitamento. O material coletado era vendido pela Associação de Pais e Mestres, e os recursos, revertidos para a escola. Com todas as dificuldades de uma escola pública, havia um trabalho integrado, de equipe. Não era só a vontade da diretora, mas de todos.

As escolas têm projetos em diferentes níveis. No Colégio Madre Carmen Sallés, também de Brasília, um professor de química, com o apoio da direção, criou um núcleo de sustentabilidade que envolve alunos do ensino médio. Os estudantes interessados em participar da atividade passam por uma seleção para desenvolver projetos com material descartado e propor ações dentro dos oito “erres”. Em reuniões semanais, fora do horário de aula e sob a orientação de professores, eles discutem a questão ambiental, desenvolvem atividades, confeccionam material de informação e fazem palestras para os demais alunos sobre a importância do meio ambiente e questões da reciclagem. Os alunos que participam não têm pontuação extra nas matérias. A motivação é outra: eles realmente têm consciência de que a ação que desenvolvem pode colaborar para a mudança de atitudes e beneficiar o ambiente de todos.

JP – Quais os reflexos na criança que aprende neste ambiente? Reflete na família?

THG – Quanto mais cedo os hábitos saudáveis e a conscientização da importância de cada um na cadeia de ações em prol de todos forem apreendidos pelas crianças e entendidos como a forma correta de fazer as coisas, mais força haverá para mudar hábitos culturalmente errados dos adultos. As crianças cobram dos pais as ações que aprendem na escola.

Nem todos se incomodam com o destino do lixo. Como diz o repórter e ambientalista André Trigueiro, "quando damos o nó no saco do lixo e o colocamos na porta da nossa casa achamos que o problema já está resolvido”. Muitos não têm a noção do destino desse lixo. Acreditam que isso não diz respeito a eles. Mas a questão diz respeito a todos nós.

Fonte: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/index.html

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