quarta-feira, 6 de março de 2013

EduPapo com Álvaro Modernell



                                                                06/03/2013
Álvaro Modernell, especialista em Educação Financeira e sócio-fundador da Mais Ativos, traz algumas explicações sobre a ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira), da qual ele participou durante os primeiros anos de sua elaboração, e conta qual a abordagem da educação financeira que ele considera ideal, após quase 10 anos atuando na área, tanto para alunos quanto para professores. Confira!

EduFin: Explique-nos o que é a ENEF.

ÁM: A ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira) é resultado de um trabalho integrado de várias instituições, coordenadas pelos órgãos de fiscalização do sistema financeiro – BACEN, CVM, SUSEP e PREVIC, e pelo MEC Ministério da Educação, com participação de diversas outras entidades e segmentos da sociedade. Visa dar ao Brasil uma linha mestra, com visão de longo prazo, de Estado, que sobreviva aos governos que se sucederem, tendo por objetivo melhorar e ampliar os níveis de percepção e entendimento por parte da população sobre diferentes aspectos das finanças pessoais. Melhor qualidade de vida para a população e melhores perspectivas de crescimento e estabilidade econômica para o país.

EduFin: Como ela surgiu e por quê? Quem está por trás desta iniciativa?

AM: Surgiu em harmonia com iniciativas internacionais de diversos outros países, decorrente de um movimento mundial, pós-desaparecimento da inflação crônica, dos blocos socialistas, da ascensão do socialismo nos países capitalistas, em continuidade aos programas de inclusão social e de microfinanças, e em decorrência natural dos processos de globalização, evolução dos mercados financeiros e necessidade de melhor distribuição de renda.

EduFin: Qual foi a sua participação junto a ENEF?

AM: Participei do GAP (Grupo de Apoio Pedagógico) nos anos iniciais do projeto, quando estava sendo concebida a ENEF, em que era necessária a participação de muitos profissionais representantes de diferentes segmentos da sociedade. Com a ENEF aprovada, a composição inicial do GAP havia cumprido seus propósitos e a condução do projeto seguiu outros rumos, com outra configuração de participantes.
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EduFin: Como e por que você foi convidado para fazer parte do GAP?

AM: Foi uma consequência da conjunção dos trabalhos que vinha desenvolvendo na área de educação financeira, especialmente no segmento infantil, com a experiência de mais de vinte anos no sistema financeiro. Havia necessidade de compatibilizar e integrar dois mundos e duas linguagens até então distantes, o do Banco Central e o do MEC e foram convidados alguns profissionais que poderiam contribuir nessa integração. Tive a honra e o privilégio de estar entre eles. Ao mesmo tempo em que aportei minhas contribuições, aprendi muito com profissionais de excelente nível de diferentes origens, que se uniram e compraram a ideia de levar educação financeira a todos.

EduFin: A ENEF chegou a qual conclusão sobre qual a melhor idade para inserir a educação financeira na educação infantil?

AM: A ENEF não se propôs a isso. Eu, particularmente, como profissional da área, tenho visto e colhido melhores resultados quando iniciada a partir do primeiro ano do ensino fundamental (6 ou 7 anos), mas também já testemunhei casos de escolas que fazem projetos e algumas iniciativas no Ensino Infantil (a partir dos 4 ou 5 anos).

EduFin: Esta idade refere-se a educação no convívio familiar ou a do currículo escolar? A educação financeira deve ser inserida nestes dois contextos ao mesmo tempo?

AM: Também em minha opinião particular e profissional, entendo que sim. Acho fundamental a integração entre escola e família na educação plena das crianças, e não é diferente em questão de educação financeira.

EduFin: A inserção da educação financeira no ensino público brasileiro se tornou obrigatória, mas, estamos preparados para esta nova fase? 

AM: Penso que é preciso trocar o pneu com o carro andando. Apesar de termos consciência de que a maioria dos professores não está preparada, até porque esse é um assunto relativamente novo, não há como esperar mais. É preciso capacitar os professores simultaneamente à expansão da educação financeira nas escolas.
O mais importante, a meu ver, é que essa formação seja plural, com diferentes visões e vertentes, que estimule a reflexão, que ofereça alternativas, que permita escolhas e complementações.

EduFin: Mas, para os professores e/ou diretores de escolas que se encontram hoje perdidos em relação a como iniciar este processos junto a seus alunos, onde e como eles podem buscar se preparar? Fale um pouco mais sobre o método que você considera ideal, ou o mais adequado.

AM: Já são centenas, talvez milhares, de escolas com projetos e atividades de educação financeira. Das muitas experiências que acompanhei e acompanho, as mais exitosas são, em primeiro lugar, as escolas que iniciam os projetos fazendo sensibilização por meio da adoção de livros especializados. É fácil, simples, rápido e não exige esforço ou investimento adicional, da escola ou das famílias. O primeiro passo é incluir livros dessa natureza nas tradicionais listas de livros paradidáticos ou literários. Isso pelo menos um ano antes de a escola implantar projetos específicos. Nesse primeiro ano, o assunto passa a ser discutido, o interesse é despertado, pais e professores se envolvem, e naturalmente a coordenação pedagógica se envolve e passa a analisar alternativas. A segunda alternativa é fazer benchmarking. Pesquisar e analisar iniciativas de outras escolas, consultar empresas especializadas, analisar materiais didáticos e paradidáticos disponíveis. Mas, o mais importante, diria fundamental, é que a escola identifique pelo menos uns dois professores dispostos a encampar a ideia. Sem um líder para o projeto é difícil alcançar o sucesso.
Acho importante, também, as escolas não se precipitarem ao escolher o caminho a seguir. Gosto da diversidade e da pluralidade. Por isso, sempre que as escolas me consultam gosto de indicar ou sugerir diversos autores, composição de materiais e a combinação de uso de materiais de terceiros com produção caseira, que seja altamente aderente à realidade da escola e da comunidade.

EduFin: E quanto a matéria a ser lecionada? Já está formulada? Já é possível afirmar que chegaram a um modelo ideal e realmente eficiente de educação financeira? Ela será lecionada em uma aula específica ou será diluída dentro das tradicionais?

AM: O modelo escolhido, após muitos estudos, inclusive de modelos de outros países, foi o da abordagem transversal, ou seja, ao invés de criar uma disciplina específica, introduzir conceitos, princípios e fundamentos de EF junto às demais disciplinas como matemática, português, história e geografia.

EduFin: Em relação a sua experiência e contato com a educação financeira para crianças, fale mais sobre a importância da inserção deste tema ainda na infância. Como um profissional da área, quais os resultados, os efeitos que consegue reconhecer nas crianças que já recebem educação financeira?

AM: Tenho envolvimento direto com educação financeira infantil há quase 10 anos. Nos últimos anos com dedicação exclusiva, quando fundei a minha empresa, a Mais Ativos Educação Financeira. Tenho 10 livros infantis publicados que são adotados em quase 200 escolas no Brasil e três deles já foram publicados também em espanhol. Como parte dos trabalhos de apoio e pesquisa visito escolas, converso com crianças, realizo palestras e oficinas para professores e pais, participo de eventos como feiras literárias, congressos e outros.

Como profissional da área fico feliz em ver a educação financeira ganhar espaços, novos autores, novos palestrantes, mais empresas especializadas, diversidade de literatura e de outros materiais. Brotam iniciativas em escolas do país inteiro. Demanda crescente, amplo apoio da imprensa e ótima aceitação por parte da sociedade. Desde minha participação no GAP defendo e estimulo ampla abertura para a entrada de novos profissionais. Ao contrário do que pensam alguns profissionais, cuja opinião respeito, acho que nesses primeiros anos temos que fomentar a diversidade e a pluralidade. A seleção e a escolha dos melhores devem ser feita pelo mercado, com o tempo. Óbvio que tem que haver responsabilidade e muito cuidado para levarmos educação financeira à sociedade, especialmente às crianças, mas o ótimo atrapalha o bom. Melhor que as ações sejam amplas, inclusivas, e atinjam o maior número possível de crianças. Com o tempo virá naturalmente a evolução, o aprimoramento e certamente serão aproveitadas todas as experiências.
Ainda é cedo para medir os efeitos e os benefícios da educação financeira infantil. Dados de pesquisa realizada pelo Banco Mundial indicam que já no primeiro ano houve melhoria de 5% no nível de compreensão de importantes temas da educação financeira. Mas, a meu ver, os melhores resultados ainda estão por vir. Nas visitas a escolas, conversas com pais e professores, colhemos dados empíricos que motivam muito. Quando o assunto é dinheiro, até as crianças ficam motivadas. Um dado importante é que vários professores e pais registraram maior interessa das crianças pela matemática quando associada a exercícios de educação financeira. Em casa, o dado positivo é menos conflitos e mais consciência no uso do dinheiro e de recursos como celular, energia, brinquedos, vestuário e até na alimentação.

EduFin: Alguns educadores dizem que, mais esta questão inserida no processo de educação pode confundir os jovens e tumultuar este processo complicado de crescimento. Como você enxerga este tipo de avaliação?

AM: Não há como haver consenso. Particularmente creio que os poucos educadores que se opõem vão acabar se convencendo da importância desse tema, principalmente para a formação cidadã das crianças e futuros adultos.

EduFin: Olhando de uma forma mais ampla, como essa nova fase irá refletir na economia brasileira?

AM: De maneira positiva. A riqueza de um país precisa ser constituída da riqueza das suas empresas e filhos. Não basta o estado ser rico. A renda precisa ser mais bem distribuída e melhor aproveitada por todos. Pessoas prósperas fazem comunidades serem mais prósperas, regiões mais ricas, mercados mais ativos, maior consumo, mais impostos e mais riquezas para a nação inteira.

Álvaro Modernell Especialista em Educação Financeira, é sócio-fundador da Mais Ativos. Profissional certificado pela ANBID e ICSS, com experiência no mercado bancário e financeiro. Palestrante e autor, com livros, artigos e entrevistas publicados no Brasil e no exterior. Escreve e colabora para edições institucionais, informativos empresariais, portais da Internet, jornais e revistas de circulação regional e nacional.

Atua como professor de educação financeira em MBA e cursos de especialização. Desenvolve projetos e trabalhos de educação financeira para instituições, grupos de adultos não especialistas em finanças e oficinas de educação financeira para crianças. Foi membro do GAP (Grupo de Apoio Pedagógico) na formulação da ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira).

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