sexta-feira, 7 de março de 2014

Entrevista com Sérgio Greif/Os testes realizados em animais e a ciência responsável


 
                                                                 Data: 07/03/2014

 Por Luciana Ribeiro

Sérgio Greif é biólogo formado pela Unicamp, mestre em Alimentos e Nutrição, docente, consultor, autor de ensaios, livros e artigos referentes ao modo de vida vegano e vegetariano. Por meio dessa vasta experiência e perspectiva acadêmica, dispõe-se, honrosamente, a ministrar palestras direcionadas aos
cidadãos e universitários para que compreendam as leis que resguardam os direitos dos animais e da preservação do planeta Terra.

Neste sentido, convidamos o ativista que acompanhou o caso beagles , ocorrido no Instituto Royal de São Roque, interior de São Paulo, a convite do Ministério Público, para dialogarmos sobre a implementação de métodos substitutivos que dispensem uso de animais nas experimentações científicas. Além disso, é importante tratar os temas de forma relevante, desafiadora e geradora de debates. Tudo isso colabora para a elucidação de fatos ou problemas complexos, os quais são poucos divulgados pela mídia em geral. No entanto, dispomos de sua obra acadêmica “Alternativas ao Uso de Animais vivos na Educação: pela ciência responsável”. A versão pdf encontra-se à disposição no Jornal Meio Ambiente On-Line (http://www.jornalmeioambiente.com/materia/6385/alternativas-ao-uso-de-animais-vivos-na-educacao citando os créditos da fonte pesquisada) para gestores públicos, médicos, universitários e cidadãos brasileiros conhecerem as novas tecnologias que protegem a vida animal com boa vontade política, ética e sustentabilidade.

JMA: Como você avalia a repercussão do caso beagles no Brasil? Os testes realizados em animais podem ser abolidos, ainda, no século XXI?

Os testes em animais não apenas poderiam já ser abolidos no século XXI, eles jamais deveriam ter existido. Não há justificativa ética ou técnica para a experimentação animal. Não é uma questão de tempo para que ela deixe de existir, porque isso seria considerá-la necessária. Ela não é necessária nem jamais foi, é este ponto que tenho tentado ressaltar. Não precisamos no presente utilizar animais, mas já não necessitávamos no passado.


No meu entender o caso dos beagles foi um evento autêntico de libertação. Chame-se de “roubo” ou “invasão”, animais não são objetos ou propriedade, pelo menos não deveriam ser. 

JMA: Atualmente, quais são os métodos substitutivos que foram introduzidos nas pesquisas científicas do Brasil? Avalie esse processo histórico, político e cultural que permeia as indústrias que vendem produtos (alimentos, medicamentos, cosméticos etc), as empresas, os laboratórios e toda a cadeia responsável diretamente ou indiretamente pela vida animal.

Todos os métodos substitutivos existentes no mundo existem também no Brasil. temos pesquisa in vitro, pesquisa clínica, epidemiológica, modelos matemáticos e computacionais, temos mais recentemente algum uso de modelos no ensino etc.

Ocorre que considerá-los métodos substitutivos é que é o problema, visto que a experimentação animal beneficia um setor importante da economia, envolvendo desde empresas fabricantes de equipamentos, gaiolas, produtores de animais, ração e a própria indústria que faz uso desses testes. 

Assim, mesmo não havendo necessidade técnica de experimentação animal, ela ainda é praticada porque é interessante economicamente. Há legislações que cuidam de obrigá-la em alguns casos.

JMA: Fale sobre a realização dos testes em animais, comparando-os aos países internacionais. Existe alguma rede de contatos para o Brasil realizar alguma parceria, por meio de projetos educativos e outros trabalhos que promovam a preservação da vida dos animais?

Existem entidades trabalhando em vários países com a intenção de promover métodos desenvolvidos, como na Europa Ocidental e também com o intuito de validar métodos substitutivos em estudos multicêntricos. Creio que esse seja o caminho, mas há que se questionar com base em que ocorre o processo de validação, pois se estamos tentando obter um método que seja tão bom quanto o modelo animal, estaremos obtendo um método que seja tão ruim quanto. O ideal é que o processo de validação se preocupe com repetitividade e a correlação com o ser humano, e não com animais de laboratório.

JMA: O que prejudica, de fato, a implementação dos métodos substitutivos no Brasil? Os pesquisadores e os profissionais da área de Medicina (Pediatra, Ginecologista, Oncologista, Geriatra, Enfermeiro etc) estão preparados para debater o flagelo dos animais, por meio das universidades e das faculdades, e, contudo, divulgar as tecnologias sustentáveis que, felizmente, revolucionaram a ciência no mundo?

Em primeiro lugar devemos deixar de considerar animais como modelos de pesquisa. Eles não são modelos, e mesmo que não tivéssemos outras formas de realizar as pesquisas, eles continuariam não sendo modelos. Em segundo lugar temos de conhecer os métodos substitutivos e promovê-los. Embora haja um interesse econômico na continuidade do uso de animais, além de uma comodidade por parte do pesquisador, devemos considerar que se o interesse maior é realmente o bem do ser humano, as pesquisas deveriam visar isso e não a obtenção de artigos e títulos. Se os diferentes atores estão preparados, creio que não. Ainda há quase um consenso que dita que animais são seres humanos em miniatura e não possuem interesses próprios. As pessoas terão de entender que ambas as suposições estão erradas para então começar a levar os animais a sério.


JMA: O Congresso Nacional discute algum projeto de Lei para moralizar a inserção dos métodos substitutivos no Brasil? De que modo a sociedade brasileira pode participar desse processo político que reconstrói e dignifica os princípios de uma ciência responsável e comprometida com a preservação do meio ambiente?

Há projetos de lei relacionados ao uso de animais, mas todos eles até agora foram escritos de forma imprudente. Eles não ajudam de fato os animais, se é que tem essa intenção. Regulamentar o uso de animais em laboratórios não é, e nunca será o caminho. O ideal é abolir seu uso, ainda que parcialmente. A melhor estratégia é abolir pelo momento o que já há um bom entendimento de que é possível abolir, sem mexer com o que ainda não se entende dessa maneira. E pouco a pouco ir abolindo todos os usos. Regulamentar o uso de animais é um desserviço e os políticos realmente preocupados com a questão jamais deveriam fazer isso.

JMA: Como é feita a seleção dos animais para participar das experiências científicas no Brasil e os quais delas objetivam zelar pela vida humana? Os animais morrem durante as experimentações científicas? Comente esse triste acontecimento e os impactos causados por ele no campo acadêmico.

Os animais utilizados em pesquisas no Brasil em grande parte pertencem às mesmas linhagens dos animais utilizados em pesquisas em outros países, são animais provenientes de biotérios. Não há grande diferença entre os países em relação a esse assunto, até porque as pesquisas constantemente repetem pesquisas já realizadas e é importante utilizar animais com similaridades genéticas para comparar os resultados. Entenda-se, porém, que essa padronização genética tende a agrupar os dados da pesquisa, mas isso também mostra que a variabilidade genética influencia nos resultados. Assim sendo, a própria metodologia dá provas de que pesquisas com animais não podem ser extrapoladas para outros grupos.

JMA: De que maneira política, científica e pedagógica os movimentos que lutam pela causa ambiental, escolas, empresas, laboratórios e outros espaços de convivência social, podem colaborar para a discussão dos métodos substitutivos que dispensam o uso da vida animal nos laboratórios? Poderia citar alguns movimentos que ressaltam a importância dos métodos substitutivos para o Brasil?

Recentemente, com os eventos envolvendo o Instituto Royal, a sociedade passou a discutir essa questão em um âmbito mais amplo e, de fato, muitos atores que eram estranhos à causa se envolveram nessa discussão, mas tradicionalmente sempre houve um grupo questionando a validade ética e técnica do uso de animais e batalhando pelo emprego de métodos substitutivos. Colaborar com a discussão tende a ser algo tendencioso porque, digamos, o professor de uma escola que foi educado em uma universidade utilizando animais de laboratório e que acredita ser esse uso necessário ensinará isso aos alunos. Nesse caso é até melhor que ele nem toque no assunto, pois assim dará liberdade para que cada criança forme sua opinião com base no que pode pesquisar sozinha na internet. Até agora a balança pendeu bastante para favorecer o uso de animais, e por enquanto, a discussão quando conduzida por alguém que crê ser esse uso necessário apenas atrasará a libertação animal, pois mais pessoas serão formadas acreditando ser esse uso bom e necessário. 

JMA: A criança precisa exercer sua cidadania por meio da identificação dos problemas ambientais que afetam a vida humana e a vida animal. Poderia citar algumas atividades ou projetos educativos para serem trabalhados nas escolas brasileiras?

Digo sempre que necessitamos rever nossos conceitos em relação ao ser humano, ao mundo natural e aos animais. Por enquanto, mesmo sendo laicos, temos exercido a doutrina religiosa de que o ser humano é a pérola da criação, os animais estão aí para nosso uso e o meio ambiente pode ser usado a nosso bel-prazer (recentemente falou-se em uso sustentável de recursos, mas ainda assim o foco é o bem-estar humano, para que os recursos não se esgotem). Enfim, nos colocamos como a coroa e tudo o mais está abaixo de nós. Classificamos os animais com base no uso que queremos dar a eles. É assim que termos como “gado de corte”, “gado de leite”, “cavalos de corrida”, “galinhas de ovos”, “cão de guarda”, “cão de estimação”, “urso de circo” não são estranhos para nós, como se esses animais tivessem nascido para isso mesmo. A primeira coisa que qualquer instituição educacional deveria fazer é acabar com essa forma de pensamento. Animais não existem para nossa conveniência, eles existem para seus próprios motivos, e sua existência não está condicionada à nossa. O meio ambiente, igualmente, necessita deixar de ser visto como propriedade ou fonte de recursos. Precisamos sair do entendimento raso do que sejam o meio ambiente e os animais e dar a cada um sua devida importância. 

JMA: Os gestores públicos (deputado, senador, vereador, presidente etc) estão preparados para o debate sobre os testes realizados em animais e suas implicações para o meio ambiente? Poderia citar algum projeto educativo que viabilize a inserção de políticas públicas que valorizam os direitos dos animais?

Não. Até o momento toda a legislação que pretende ser em defesa dos animais nada mais faz do que valorizar de alguma forma sua exploração. Há políticos seguidamente vencendo eleições usando os animais como plataforma, mas isso só acontece porque as pessoas simpatizam com o discurso e votam neles. O que eles tem feito não é, de fato, em favor dos direitos animais. 

JMA: Quais sãos os órgãos fiscalizadores das experiências científicas realizadas no Brasil e como o cidadão pode socializar-se com essas informações complexas e pouco divulgadas pela mídia em geral?

Não existem órgãos que realizam tais fiscalizações. O Ministério da Ciência e Tecnologia criou o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), mas apesar do nome ele não fiscaliza a experimentação animal, mas sim tem a função de licenciamento. E mesmo que fiscalizasse, o CONCEA é parte interessada na continuidade da experimentação animal, ele é formado por pessoas que experimentam em animais, inclusive, então que fiscalização seria essa?

JMA: As políticas públicas gerenciadas pelos órgãos competentes e atuantes no Brasil podem articular assuntos referentes à adoção, à vacinação e à castração de animais com a discussão a respeito dos métodos substitutivos no Brasil? De que forma esse propósito político e pedagógico pode manifestar-se com a participação do cidadão?

Bem, seriam necessárias termos política públicas mais abrangentes que pudessem pensar todas as questões envolvendo animais, mas não seria impossível de isso acontecer. O caso é que a sociedade atualmente confere pesos distintos a diferentes animais, conforme a simpatia de que goza a espécie em questão. Cães e gatos tem um status superior em nossa sociedade visto que simpatizamos mais com eles. Mas pode-se pensar outras políticas que pensem os animais de uma outra forma, e seu valor seja dado com base não em simpatia, mas na capacidade de sentir. Então sim elaboraremos políticas que sejam realmente justas para com os animais.

JMA: A Lei Arouca (Lei n.º 11.794/08) estabelece algumas exigências para amenizar o flagelo dos animais, como, por exemplo, anestesiá-los, sedá-los e analgesiá-los de modo seguro e responsável durante a realização das experiências científicas nos laboratórios. Essas normas são cumpridas com rigor e disciplina?

Em primeiro lugar a Lei Arouca não ameniza de forma alguma o sofrimento animal, pelo contrário ela representa um grande retrocesso para a causa animal. É ela que cria o CONCEA, órgão que supostamente regulamenta o uso de animais, mas que em verdade é seu grande promotor. Precisamos deixar de ler as leis de maneira superficial e percebermos o que elas realmente estão querendo dizer, ou seja, quais são as intenções por trás. Como podemos falar em uso responsável de animais em experimentos, esses animais são cortados, mutilados, mortos, não é aceitável que façamos isso com seres humanos, por que seria com animais?

JMA: Poderia citar alguns referenciais acadêmicos (livros, jornais, revistas sites, cursos, palestras, blogs etc) para serem socializados entre gestores públicos, educadores, estudantes de Medicina e cidadãos no geral para saberem dos benefícios gerados pelas novas tecnologias sustentáveis aplicadas nas experimentações científicas?

Há muito material acessível na internet, mas recomendaria que os interessados lessem, para começar, um livro que publiquei em companhia do biólogo Thales Tréz em 2000 e que se encontra disponível para ser baixado em http://www.falabicho.org.br/PDF/LivroFalaBicho.pdf.
Um segundo livro, sobre métodos substitutivos na educação pode ser encontrado emhttp://www.institutoninarosa.org.br/livros/alternativas.pdf 
Recomendo também o site em língua portuguesa http://www.1rnet.org/. Mas há, ainda, muitos sites de organizações com conteúdo adequado para alguém que queira estudar sobre o assunto. Algumas recomendações: http://www.navs.org/, http://www.aavs.org/‎,http://www.neavs.org/,http://www.nzavs.org.nz/, http://www.buav.org/, http://vivisectionresearch.ca/, ,http://www.hansruesch.net/.

JMA: Recentemente divulgamos a seguinte petição no Jornal Meio Ambiente On-line: http://www.jornalmeioambiente.com/materia/6423/queremos-o-selo-nao-testado-em-animais-em-produtos-de-higiene-pessoal-e-limpeza . Neste sentido, a aprovação do selo a ser inserido nos produtos de beleza, cosméticos, alimentos etc, viabiliza o fortalecimento dessa discussão científica entre os gestores públicos, médicos, pesquisadores, indústrias e cidadãos brasileiros?

Veja que o exemplo deste selo ilustra bem o que eu quis dizer com relação á elaboração de leis por parte dos legisladores. Não sei se é por falta de conhecimento ou má assessoria, mas toda lei que pretende ser em defesa dos animais acaba tendo efeito nulo ou mesmo prejudicando os animais. A legislação não deveria obrigar a apresentação de selo de “não testado” em animais, é interesse a empresa colocar tal rótulo porque com isso ela pode atingir a um público específico que procura por produtos não testados em animais. Por acaso há um selo obrigatório para produtos orgânicos? Há algum selo que obrigue as empresas a declararem que seus produtos são benéficos à saúde? Claro que não, porque se a empresa coloca isso em seu rótulo melhor para ela. 

O correto seria que as empresas que testam seus produtos colocassem isso de forma legível no rótulo (como produtos que são transgênicos são obrigados a colocar, ou os cigarros são obrigados a colocar dizeres com relação aos efeitos do produto sobre a saúde), pois aí sim a empresa estará constrangida a deixar esses testes. Realmente não faz sentido, na minha opinião, onerar ou obrigar de alguma forma que já tem feito certo, o correto seria obrigar a quem faz errado.

Ademais, o legislador tem em suas mãos o poder para fazer mais do que obrigar empresas a rotular produtos. Recentemente participei da elaboração de um projeto de Lei que simplesmente proíbe as empresas de cosmético, produtos de higiene pessoal e material de limpeza testarem em animais. Nesse caso sim a legislação faz a diferença.

JMA: Comente sua participação na Rede InterNICHE http://www.internichebrasil.org/alt.htm e a importância dela para a discussão dos métodos substitutivos a serem mais difundidos no Brasil e no mundo. Por meio dela, você mobilizou quais ações educativas para sensibilizar o campo acadêmico e o cidadão?

Eu representei a InterNICHE no passado, mas não a represento mais há anos. Mas o trabalho da organização, que eu continuei realizando mesmo depois de meu desligamento da mesma, é auxiliar as instituições a conhecerem os métodos substitutivos ao uso de animais no ensino, auxiliá-las a abandonar o uso de animais, trabalhar diretamente com os professores ou com estudantes que estejam enfrentando problemas em relação ao uso de animais em sala de aula.

JMA: Recado ecoespecial para os leitores do Jornal Meio Ambiente.

Engana-se quem crê que os animais são recursos que podemos utilizar para nossa conveniência. Engana-se também quem crê que é possível se extrapolar dados obtidos de animais para seres humanos (caso assim o fosse poderíamos nos consultar com veterinários). Precisamos mudar nossa visão de mundo e sair do plano do entendimento raso da compaixão e da preservação dos recursos naturais. Os animais não querem nossa compaixão, simplesmente eles não são nossos para que façamos deles o que bem quisermos. É uma questão de direitos básicos e não de benevolência de nossa parte não fazer uso de animais. É uma questão de direito e não de ecologia entendermos o meio ambiente não como fonte de recursos, mas como uma entidade dinâmica que deve gozar de direitos próprios. Apenas quando entendermos tais coisas seremos ecologistas de fato, ou defenderemos os direitos animais de fato.


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